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É
bom fazer promessas?
Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 262 – Ano 1982 – Pág. 202.
Em
síntese: O presente artigo analisa a prática das promessas
feitas a Deus ou aos santos por pessoas desejosas de obter alguma
graça. Tal prática tem fundamentado na própria
Bíblia (cf. Gn 28,20-22; 1Sm 1,11). Todavia verifica-se que
os autores bíblicos faziam advertências aos fiéis
no sentido de não prometerem o que não pudessem cumprir
(cf. Ecl 5,4). No Novo Testamento São Paulo quis submeter-se
às obrigações do voto do nazireato (cf. At
18,18; 21,24). Estas ponderações mostram que a prática
das promessas como tal não é má. É certo,
porém, que as promessas não movem o Senhor Deus a
nos dar o que Ele não quer dar, pois Deus já decretou
desde toda a eternidade dar o que Ele nos dá no tempo, mas
as promessas contribuem para afervorar o orante, excitando neste
maior amor. Acontece, porém, que muitas vezes os cristãos
não têm noção clara do porquê das
promessas ou prometem práticas que eles não podem
cumprir. Daí surgem duas obrigações para quem
tem o encargo de orientar os irmãos: 1) mostre-lhes que as
promessas nada têm de mágico ou de mecânico,
nem se destinam a dobrar a vontade de Deus, como se o Senhor se
pudesse deixar atrair por promessas, à semelhança
de um homem; 2) procure incutir a noção de que o cristão
é filho do Pai e, por isto, não precisa de prometer
ao Pai; o amor filial com que o cristão reze a Deus, é
mais eloqüente do que a linguagem das promessas, que podem
ter um sabor “comercial” ou muito pouco filial.
Comentário:
Entre os fiéis católicos não é raro
fazerem-se promessas a Deus ou a algum santo,... promessas de algum
ato heróico a ser cumprido caso a pessoa receba a graça
que deseja. Em conseqüência, fala-se de “pagar
promessas”. Não raro os fiéis que prometem,
depois de atendidos, não têm condições
físicas, psíquicas ou financeiras para pagar as suas
promessas. Sentem-se então angustiados, pois receiam que
algo de mau ou um castigo lhes sobrevenha da parte de Deus por não
cumprirem as suas “obrigações”. O problema
é tormentoso e merece ser analisado desde as suas raízes,
ou seja, a partir do conceito mesmo de piedade que os fiéis
cristãos devem alimentar. É o que vamos fazer nas
páginas subseqüentes, examinando: 1) a fundamentação
bíblica, 2) a justificativa teológica das promessas,
3) a casuística ocasionada, 4) uma conclusão final.
1.
Fundamentação bíblica
O
costume de fazer promessas ou, segundo linguagem mais bíblica,
votos tem origem na piedade popular anterior a Cristo. É
documentado pela própria Bíblia, que nos mostra como
pessoas, em situações difíceis necessitando
de um auxílio de Deus, prometeram fazer ou omitir algo, caso
fossem ajudadas pelo Senhor. Foi, por exemplo, o que aconteceu com
Jacó, que, ao fugir para a Mesopotâmia, exclamou: “Se
Deus estiver comigo, se me proteger durante esta viagem, se me der
pão para comer e roupa para vestir e se eu regressar em paz
à casa de meu pai,... esta pedra... será para mim
casa de Deus e pagarei o dízimo de tudo quanto me concederdes”
(Gn 28, 20-22). Ana, estéril, mas futura mãe de Samuel,
fez a seguinte promessa: “Senhor dos exércitos, se
vos dignardes olhar para a aflição da vossa serva
e... lhe derdes um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor
durante todos os dias de sua vida e a navalha não passará
sobre a sua cabeça” (1Sm 1,11). Alguns salmos exprimem
os votos ou as promessas dos orantes de Israel; assim os de número
65. 66. 116; Jn 2,3-9.
A
própria Escritura, porém, dá a entender que,
entre os membros do povo de Deus, houve abusos no tocante às
promessas: algumas terão sido proferidas impensadamente:
“É melhor não fazer promessas do que fazê-las
e não as cumprir” (Ecl 5,4). Havia também quem
quisesse cumprir as suas promessas oferecendo o que tinha de menos
digno ou valioso em vez de levar ao Templo as suas melhores posses;
é o que observa o Senhor por meio do profeta Malaquias: “Trazeis
o animal roubado, o coxo ou o doente e o ofereceis em sacrifício.
Posso eu recebê-lo de vossas mãos com agrado?... Maldito
o embusteiro, que tem em seu rebanho um animal macho, mas consagra
e sacrifica ao Senhor um animal defeituoso” (Ml 1, 13s). Com
o tempo os mestres de Israel procuravam restringir a prática
das promessas, pois podiam tornar-se um entrave para a verdadeira
piedade. No Evangelho Jesus supõe que certos filhos se subtraiam
ao dever de assistir aos pais, alegando que tinham consagrado a
Deus todo o dinheiro disponível:
“Vós
por que violais o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?
Com efeito, Deus disse: “Honra teu pai e tua mãe”
e “Aquele que maldisser pai ou mãe, certamente deve
morrer”. Vós, porém, dizeis: “Aquele que
disser ao pai ou à mãe: Aquilo que de mim poderias
receber, foi consagrado a Deus, esse não está obrigado
a honrar pai ou mãe”. Assim invalidastes a Palavra
de Deus por causa da vossa tradição” (Mt 15,
3-6).
Todavia
não consta que o Senhor Jesus tenha condenado o costume de
fazer promessas como tal; ao contrário, os escritos do Novo
Testamento atestam a prática de S. Paulo, que terá
sido a dos cristãos da Igreja nascente e posterior:
“Paulo
embarcou para a Síria... Ele havia rapado a cabeça
em Cencréia por causa de um voto que tinha feito” (At
18,18).
“Disseram
os judeus a Paulo: “Temos aqui quatro homens que fizeram um
voto... Purificar-te com eles, e encarrega-te das despesas para
que possam mandar rapar a cabeça. Assim todos saberão
que são falsas as notícias a teu respeito, e que te
comportas como observante da Lei” (At 21, 23s).
Em
síntese, a praxe das promessas não é má,
pois a S. Escritura não a rejeita, mas, ao contrário,
torna-se objeto de determinações legais, como se depreende
dos textos abaixo:
Lv
7,16: “Se alguém oferecer uma vítima em cumprimento
de um voto ou como oferta voluntária, deverá ser consumida
no dia em que for oferecida, e o resto poderá ser comido
no dia imediato”.
Nm
15,3: “Se oferecerdes ao Senhor alguma oferenda de combustão,
holocausto ou sacrifício, em cumprimento de um voto especial
ou como oferta espontânea...”.
Nm
30,4-6: “Se uma mulher fizer um voto ao Senhor ou se impuser
uma obrigação na casa de seu pai, durante a sua juventude,
os seus votos serão válidos, sejam eles quais forem.
Se o pai tiver conhecimento do voto ou da obrigação
que se impôs a si mesma será válida. Mas, se
o pai os desaprovar, no dia em que deles tiver conhecimento, todos
os seus votos... ficarão sem valor algum. O Senhor perdoar-lhe-á,
porque seu pai se opôs”.
Dt
12,5s: “Só invocareis o Senhor vosso Deus no lugar
que Ele escolher entre todas as vossas tribos para aí firmar
o seu nome e a sua morada. Apresentareis ali os vossos holocaustos,...
os vossos holocaustos,... os vossos votos...”
Verifica-se,
porém, que a prática dos votos nem sempre é
salutar, merecendo por isto advertências da parte dos autores
sagrados.
2.
Qual a justificativa das promessas?
É
certo que as promessas não são feitas para atrair
Deus como se atrairia um homem poderoso, capaz de ser aliciado por
dádivas e “pagamentos”; Deus não muda
de desígnio; desde toda a eternidade Ele já determinou
irreversivelmente dar-nos o que Ele nos concede dia por dia. Todavia,
ao determinar que nos daria as graças necessárias,
Deus quis incluir no seu desígnio a colaboração
do homem que se faz mediante a oração; com outras
palavras: Deus quer dar..., e dará..., levando em conta as
orações que Lhe fazemos. Sobre este fundo de cena
as promessas têm valor não tanto para Deus quanto para
nós, orantes; sim, as promessas nos excitam a maior fervor;
são o testemunho e o estímulo da nossa devoção;
supõe-se que quem promete e cumpre a sua promessa, exercita
em seu coração o amor a Deus; ora isto é valioso.
Por conseguinte, quem vive a instituição das promessas
em tal perspectiva, pode estar fazendo algo de bom, pois concebe
mais amor e fervor. Diz o Senhor no Evangelho, referindo-se à
pecadora que lhe lavou os pés pecados lhe estão perdoados”
(Lc 7,47). Paralelamente diríamos, pode estar-se abrindo
mais plenamente à misericórdia e à liberalidade
do Senhor Deus.
3.
E a casuística das promessas?
Há
pessoas que, depois de receber o dom de Deus, se vêem embaraçadas
para cumprir as suas promessas, porque não têm condições
de saúde, de tempo ou de bens materiais para executar o que
prometeram.
Que
fazer?
-
Antes do mais, afastem a hipótese, às vezes comunicada
por religiões não cristãs, de que, se não
“pagarem as suas obrigações”, estarão
sujeitos a graves desgraças; na verdade, Deus não
é vingativo nem é policial que pune contravenções,
mas é Pai..., de tal modo que pensar em Deus deve despertar
no cristão sentimentos de paz, confiança e alegria.
Isto, porém, não quer dizer que o cristão despreocupadamente
deixe de cumprir as suas promessas. Quem não as pode executar,
procure um sacerdote e peça-lhe que troque a matéria
da promessa. Esta solução condiz com os textos bíblicos
que, de um lado, exortam a não deixar de cumprir o prometido
(cf. Ecl 5,3), e, de outro lado, prevêem a insolvência
dos fiéis e a possibilidade de comutação dos
votos (ou promessas) por parte dos sacerdotes:
“Se
aquele que fizer um voto não puder pagar a avaliação,
apresentará a pessoa diante do sacerdote e este fixá-la-á;
o valor será fixado pelo sacerdote de acordo com os meios
de quem fizer voto” (Lv 27, 8; cf. Lv 27,13s.18.23).
Poderá
acontecer que, em certos casos, o padre julgue oportuno dispensar,
por completo, de certa promessa o fiel cristão.
A
propósito convém incutir que, se alguém quer
fazer uma promessa, evite propor certas práticas que são
um tanto irracionais (como ocorre na peça “O pagador
de promessas”); procure, ao contrário, prometer práticas
não somente exeqüíveis e razoáveis, mas
também úteis à santificação do
próprio sujeito ou ao bem do próximo. Não tem
sentido prometer algo que outra pessoa deverá cumprir, como
é o caso de pais que prometem vestir o seu filho “de
São Sebastião” no dia da festa do Santo; esta
prática como tal não fomenta o amor a Deus e ao próximo.
Quanto aos ex-voto (cabeças, braços, pernas... de
cera), que se oferecem em determinados santuários, podem
ter seu significado, pois contribuem para testemunhar a misericórdia
de Deus derramada sobre as pessoas agraciadas; assim levarão
o povo de Deus a glorificar o Senhor; mas é preciso que as
pessoas agraciadas saibam por que oferecem tais objetos de cera,
e não o façam por rotina ou de maneira inconsciente.
Entre as práticas que mais se podem recomendar, apontam-se
as três clássicas que o Evangelho mesmo propõe:
a oração, a esmola e o jejum (cf. Mt 6,1-18). Com
efeito, a S. Missa é o centro e o manancial, por excelência,
da vida cristã, vida cristã que se nutre outrossim
mediante a oração; a esmola e a colaboração
com o próximo recobrem a multidão dos pecados (cf.
1Pd 4,8; Tg 5,20; Pr 10,12); o jejum e a mortificação
purificam e libertam das paixões o ser humano, possibilitando-lhe
mais frutuoso encontro com Deus através dos véus desta
vida. Se a prática das promessas levar o cristão ao
exercício destas boas obras, poderá ser salutar. Requer-se,
porém, que os pastores de almas e os catequistas instruam
devidamente os fiéis a fim de que compreendam que as promessas
nada têm que ver com as “obrigações”
dos cultos afro-brasileiros, mas hão de ser expressões
do amor filial e devoto dos cristãos ao Senhor Deus.
4.
Conclusão
Como
se vê, a prática das promessas pode ser fundamentada
na própria Bíblia. Verifica-se, porém, que
já os autores sagrados lhe faziam certas restrições.
Hoje em dia nota-se que freqüentemente alimenta uma mentalidade
religiosa “comercial” ou amedrontada e doentia, gerando
facilmente o escrúpulo mórbido. Muitas pessoas se
sobrecarregam com promessas e mais promessas que elas não
conseguem cumprir; em vez de fomentar a vida cristã, as promessas
a prejudicam não raras vezes. Por isto é de sugerir
que os cristãos reconsiderem tal costume, que de resto parece
mais fundado numa concepção antropomórfica
de Deus (concebido como o Grande Banqueiro, cuja benevolência
é preciso cativar) do que na autêntica visão
que o Cristianismo tem de Deus. Este é Pai, Aquele que nos
amou primeiro, antes mesmo que O pudéssemos amar (cf. 1Jo
4,19.9s; Rm 5,7s); por conseguinte, somos seus filhos, certos de
que o amor do Pai é irreversível ou não volta
atrás, cientes também de que, antes que Lhe peçamos
alguma coisa, Ele já decretou dar-nos tudo o que seja condizente
com o nosso verdadeiro bem; diz São Paulo: “Aquele
que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou
por todos nós, como não nos terá dado tudo
com Ele?” (Rm 8,32).
Data
Publicação: 11/08/2008
Tirado
do site: www.cleofas.com.br
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